"Eu não sou uma mulher superior e bem resolvida, que fique claro. Bem, ao menos não acho que me encaixe na categoria. Tenho uma coleção de amores platônicos ou mal resolvidos maior que álbum de figurinha, anos e mais anos de rostos coletados da multidão direto pro meu cérebro, do cérebro uma rápida passagem pelo coração, do coração para o arquivinho de pessoas que interessam e/ou interessaram algum dia. O fato é que, se um dia você teve um álbum de figurinhas, seja lá de Campeonato Brasileiro, Amar É... Moranguinho ou Amor Perfeito, você deve lembrar das figurinhas com holograma. Aquelas que não vinham em todos os pacotes, aquelas que brilhavam (e muito). Então. Os meus olhos, pequenos olhos míopes cercados de olheiras, que precisam com urgência de óculos, seguem flertando com mil cabeças por dia, eu vejo os outros olhos, pessoas correndo, formigas na cidade. E minha cabeça tira as melhores fotos Polaroid do mundo, tudo em pastas imaginárias, arquivos que nunca acabam, sim. Sua foto esta lá, junto com algumas estórias que anexei ao seu suposto currículo de vida, obviamente também pensado por mim.Você está lá.
E está na sua ficha em letras garrafais: alto, magro,ossinhos aparecendo, nada tímido, camisetas mal escolhidas e amassadas, tênis. Odeio milhares de coisas, mas nestes dias notei que está presente com louvor no top five “ódios da minha vida” a seguinte afirmação: odeio idealizar pessoas, por isso odeio você.
Pessoas são só pessoas. Quando são desconhecidas, pior ainda. São pessoas que você não tem a mínima ideia de como vivem, o que comem, no que acreditam, quanto pagam de aluguel por mês, quem elas amam.
E é muito fácil acreditar em alguém que você não conhece muito, ou não conhece o suficiente pra saber quais os defeitos e qualidades realmente figuram na personalidade do indivíduo. Eu sempre caio no erro. Nunca fui boa em estatística, sempre torci o nariz pro mais provável, sempre fui contra unanimidades. Acreditei que você seria diferente.
Estava perto do palco e só queria três minutos, a música certa e os planos todos que eu maquinei na minha cabeça por uns bons muitos meses começariam a acontecer.
E sabe, hoje a noite me parece engraçada, estive pensando. As pessoas. O que me fascina. O que me faz escrever loucamente e sentir tudo de forma intensa. As pessoas e tudo aquilo que elas são ou poderiam ser. Não existem outros caminhos, não existem mais motivos. E se eu me perco e a culpa é delas. Sim, as pessoas. Sim, você. Ele. Eles. Elas. Todos. Um só. A influência é enorme e involuntária. Eu não preciso de ninguém para tecer comentários, dar pitacos ou me presentear com opiniões. Eu só preciso de alguém pra assistir, notar, anotar, juntar os cacos, montar os imensos quebra-cabeças, adivinhar, jogar. Pessoas únicas, que surgem do nada, para que eu possa continuar acreditando.
Figurinhas com holograma me fazem perder o fôlego.
Pessoas que brilham. Pessoas, assim como você, que me fazem percorrer estradas invisíveis e comer pó ainda quente do sol da tarde. Pessoas que me fazem ficar triste por ter idealizado por séculos e a noite ter acabado ali. Depois de três ou quatro cartelas de comprimidos. Talvez alguns beijos sem vontade durante alguns meses. Pouca conversa e cara de sono somados ao desinteresse habitual geral da nação. A vida anda difícil, sabemos. Não aposto em números errados. Cálculo, erro, planejo novamente. Jogo na casa dois. Perco. Espero uns dias e volto a jogar. O jogador é paciente, estrategista e nunca perde o foco. Nunca vou ganhar sempre. Sou má jogadora, tenho alguma fé extra que faz meu sangue borbulhar. Não sou tão fria como pareço. Tem gente atrás da fantasia com espada e armadura. Eu, aquela que você não conhece mais e não quis conhecer de verdade.
Por algum tempo, naquelas noites, achei que tinha completado meu álbum. Juro, eu achei que realmente tivesse encontrado a figurinha premiada, com holograma e vale-brinde. Achei que não ia mais sentir esse frio ruim na barriga por manter uma situação vazia, um eterno momento incompleto. Achei que ia deixar de ter sete anos, que deixaria de pedir pra minha mãe ir na banca aos sábados pela manhã buscar x+2 pacotinhos pra tentar achar o que eu sabia que queria, mas não sabia onde estava. É, foi só por alguns meses.
Álbuns eram uma maneira das editoras ganharem dinheiro fácil.
Você, não.
Você virou a figurinha com holograma que me faz ficar acordada por madrugadas inteiras tentando achar respostas, mesmo tendo que acordar às 6:30 pra estudar no outro dia, mesmo com a certeza de que não vou acordar ao seu lado em mais nenhum dia da minha vida.
Mesmo com a certeza de que você nunca mereceu saber nada disso."
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